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  • outubro 10, 2026

Com “Sequestro Pantaneiro”, pecuaristas driblam a seca e transformam desafios em lucro de R$ 160 mil

Com “Sequestro Pantaneiro”, pecuaristas driblam a seca e transformam desafios em lucro de R$ 160 mil
Na Fazenda Aparecida, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, uma cena tem chamado a atenção: 200 bezerros recém-desmamados confinados em piquetes com cercas, sombra e cochos adaptados de “big bags”. Longe de ser um confinamento tradicional, a estrutura simples e de baixo custo faz parte de um experimento batizado de “Sequestro Pantaneiro”. Em um lote de 200 animais, o lucro líquido projetado encosta na casa dos R$ 160 mil.

Liderado pelo grupo Pecus, em parceria com o Grupo Real e Embrapa, o projeto nasceu para resolver um problema histórico que agora se agrava com o clima extremo: a venda forçada de bezerros na baixa do mercado durante a seca severa, gerada pela falta de pasto.

“A gente não está inventando a roda, mas estamos quebrando paradigmas. O objetivo é técnico e financeiro. Tiramos o bezerro do pasto, que está com restrição, e o levamos para uma estrutura fechada para agregar peso até o mercado reagir”, explica o pantaneiro Marcelo Rondon.

A estratégia desafia a difícil logística da região com soluções práticas. Os cochos de lona reaproveitada, por exemplo, custam cerca de R$ 50 o metro. Em vez do pasto escasso, a dieta é baseada no fornecimento de feno, somada à nutrição de precisão com suplemento proteico que destrava a digestão da fibra seca. Para combater o estresse térmico e o choque da desmama, a água recebe medicação homeopática, acalmando o gado, blindando a imunidade e elevando a performance no cocho.

O planejamento financeiro da operação justifica todo o esforço. Rodrygo Sanchik, coordenador técnico da Pecus, explica que, ao segurar os animais por cerca de 100 dias, sem que eles mudem de era, ou seja, sem que passem dos 12 meses e virem garrotes, o valor agregado por quilo se mantém alto. “O custo estimado para manter essa estrutura é de cerca de R$ 500 por animal. Com o ágio do bezerro pesado, projetado para 260 kg lá em novembro, a expectativa é ter um ganho limpo de R$ 800 a R$ 900 por cabeça”, detalha.

A ameaça do El Niño

Iniciativas como a da Fazenda Aparecida deixam de ser apenas uma opção comercial e passam a ser uma questão de sobrevivência diante do atual cenário climático. As anomalias impulsionadas pelo El Niño, marcadas por ondas de calor intenso e escassez hídrica no Centro-Oeste, devem se estender até meados de 2027 e representam um risco iminente para a pecuária de corte.

Uma ampla revisão científica publicada este ano aponta que o estresse térmico, aliado à forragem seca, pode reduzir em até 20% a eficiência do rebanho. O déficit hídrico acelera a lignificação do capim, derrubando a proteína bruta para menos de 5% e provocando um perigoso efeito cascata.

O prejuízo atinge todas as fases do sistema. Na cria, causa reabsorção embrionária e derruba a produção de leite; na recria, o garrote deixa de ganhar até 300 gramas diárias por conta da restrição proteica. Já na engorda, a conta é dramática: uma perda de 20% de eficiência em um animal projetado para 20 arrobas significa entregar 4 arrobas a menos. Em um rebanho de apenas 100 cabeças, são 400 arrobas que literalmente evaporam com o calor.

O fim do amadorismo na pecuária

“Não controlamos a chuva, mas temos controle absoluto sobre o cocho. Quando o pasto perde qualidade no bioma pantaneiro ou no cerrado, é preciso intervir de forma exata para manter a flora ruminal ativa e proteger o caixa da fazenda”, alerta Leonardo Stábile, Zootecnista e gerente comercial do Grupo Real.

Segundo o especialista, a solução exige suplementação desenvolvida sob rígidas Boas Práticas de Fabricação (BPF), além de manejo cuidadoso da ambiência, lembrando que o consumo de água de um bovino pode saltar de 40 para 80 litros sob calor extremo.

“A estratégia nutricional para blindar o rebanho exige nitrogênio não proteico de alta segurança, energia de rápida fermentação e microminerais de alta absorção. Quando entregamos essa nutrição exata e somamos ao olhar cuidadoso do produtor, com um planejamento estratégico de ponta a ponta, como vemos no Sequestro Pantaneiro, a pecuária prova que não há mais espaço para amadorismo”, finaliza Stábile.

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